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Ir ou NÃO ir

Sumário e documentação


Para acesso a toda a documentação sobre o concurso de Professores para 2002/2003, click AQUI
Tudo o que existe sobre empregos em geral, para quem quer ir para Timor, está AQUI


Considerandos
Não vou se...
Como é aquilo por lá?
Curiosidades timorenses
O MEU contrato
O concurso de 2000/2001
Contactos
Cuidados a ter, vacinas, etc.
Vacinas, material a levar, etc.
Coisas para levar (a lista não-oficial)
Cuidados a ter (a lista não-oficial)
Estatuto do trabalho em Timor-Leste
Timor é Oriente!
Agência Lusa - notícia da partida
Ensaio sobre Timor, por Miguel Garcia
Notas sobre o ensaio de M. Garcia
Viagens: preços e escalas





Ir ou não ir, eis a questão


Vou para Timor!
Vai? Vais? Vamos?

Para os colegas que estão em vias de seguir para Timor-Leste, e, muito provavelmente, não apenas para estes, segue-se uma lista daquilo que de mais importante há a ter em consideração. A ideia é condensar toda a informação relevante para quem está indeciso, ou não sabe exactamente o que esperar; com documentação da página primitiva deste site (Agosto 2000) e alguns documentos mais actuais (de que se fala mais adiante). O que aqui se apresenta é UM CASO PESSOAL, o meu, evidentemente: a minha experiência no território, o MEU contrato, em suma, a MINHA opinião. Que fique desde já claro que ninguém é obrigado, como está claramente expresso na página porquê este site, a estar de acordo, ou sequer a ler isto. Se puder ajudar em alguma coisa, muito bem; caso contrário, e pode muito bem acontecer, se isto apenas aumentar a confusão que lhe vai na cabeça, caro(a) colega, lamento. Apenas teria gostado, eu próprio, antes de ir, ter tido algum conhecimento do que é Timor, e como é viver lá.
Para que se não levantem equívocos, esta página é integralmente escrita, por conseguinte, na primeira pessoa do singular.
Comecemos pelo essencial, ou seja, aquilo que, NA MINHA OPINIÃO, pode ser totalmente impeditivo.

Não vou:
- se estiver doente ou tiver alguma doença crónica (reumatismo de qualquer tipo, problemas respiratórios ou cardíacos, insuficiência renal, etc., etc. etc.): o meu contrato diz que o "seguro de saúde e acidentes pessoais" não cobre doenças crónicas; a bem dizer, não sei bem o que está coberto pela Companhia de Seguros Tranquilidade. Calculo que nada
- se tiver algum ferimento, incapacidade ou limitação física (nos pés, nas mãos, nas costas ou, para simplificar, seja onde for e como for) e também quaisquer alergias: a assistência no território é muito difícil e, como tudo o mais, só existe em Díli
- se não tiver um "buraco" para onde regressar, em Portugal, no caso de algo correr mal em Timor e tiver de voltar antes do fim do contrato: um regresso forçado, para quem planeava estar ausente durante um ano, implica o corte de laços familiares e de conhecimentos; depois, é preciso começar tudo de novo
- se tiver uma proposta de trabalho melhor, ou uma alternativa credível, em Portugal ou na China: é preciso ter a certeza de que é mesmo IR que se pretende (Timor não é uma brincadeira)
- porque acho que sou fisicamente sensível a alterações climáticas, atreito a distúrbios alimentares, ou mesmo grandes variações de humor: 44 graus com mais de 90% de humidade são condições normais; é uma temperatura normal
- porque não me informaram suficientemente das condições de vida, de trabalho e/ou não compreendi totalmente o que está estipulado no contrato de trabalho
- porque acho (são manias) que a alimentação é um bem essencial: ao contrário da tropa, a minha entidade patronal não me paga nem garante a "paparoca"
- porque não me sinto capaz de aguentar um ano inteiro a viver com um grupo de desconhecidos, fechado, "por razões de segurança" ou seja lá pelo que for, dentro de uma casa: partilha-se tudo, desde o WC à viatura de serviço (uma por grupo), passando pelo frigorífico e tudo o mais; os quartos são para dois
- porque prezo muito a minha liberdade e não gosto que me perguntem o que faço na minha vida privada ou no meu tempo livre: as deslocações, para os profes colocados nos Distritos, são planeadas à razão de uma por mês, na viatura de serviço; fora disso, só arranjando boleia (o que é proibido)
- porque tenho os meus hábitos (de trabalho, de estilo de vida) e não suporto a vida comunitária, a bandalheira, o salve-se quem puder: as decisões dos grupos são tomadas por maioria "democrática", geralmente com uma base sexista. Em alternativa, cada um toma as suas próprias "decisões" e faz o que muito bem lhe apetece
- porque sei que podia quase ser avô da esmagadora maioria dos e das colegas: no contingente de 2000/2001, cálculo meu, quatro quintos das pessoas eram menores de 30 anos, e, destes, dois terços eram de sub-25; alguns nunca deram uma aula na vida
- porque não sou muito calhado para inventar, e nem sequer improvisar: o material pedagógico, em Timor, é constituído por um manual e uns paus de giz indonésio; as turmas têm o dobro ou o triplo dos alunos (há turmas de cem para cima) do que é hábito em Portugal
- porque não me vejo com horários de 28, 30 36 (!) tempos lectivos semanais; cada "tempo", em Timor, tem 45 minutos, mas cada aula tem 3 destes, sem intervalo! Ao horário-base, de 24 tempos, há que acrescentar os chamados cursos a professores timorenses, mais as diversas campanhas de educação (adultos e crianças) e outras (vacinação, distribuição de material, etc.). Mais reuniões, avaliações, testes, e outra vez etc.
- porque me acho no direito de expressar a minha opinião, seja em que circunstâncias for; não aprecio particularmente as actividades de ginástica oral, ou seja, ter muito cuidado com o que se diz: em Timor, é suposto nenhum "malai" (estrangeiro) se queixar de nada, porque os timorenses passaram pelo Inferno e estão vivos, e etc. e tal. Lá, não convém nada referir trivialidades como a falta de água, de combustíveis, de comida, de correio, de material, de apoio.


Como é aquilo por lá?
Bem, depende. Uma coisa é Díli, outra coisa é fora de Díli.
A regra geral, e o que Timor tem de comum, é o clima... de ananazes; mas nem isso é igual em todo o lado! Nas montanhas, pode fazer frio, bem, relativo, mas dá para usar casaco. Em Maubara, torra-se positivamente, a 44 graus, nas calmas, 95% de humidade; a 14 km, em Liquiçá, também faz geralmente um calor dos diabos, dia e noite, mas é mais suportável; no outro sentido, para Leste, a apenas 12 km, Bogoró, já se suporta melhorzinho. E isto é só para dar um exemplo de como as coisas mudam e... não mudam, em poucos minutos de automóvel.
A propósito, em Timor conduz-se pela esquerda; a gente habitua-se em 10 ou 20 km de condução, mas é conveniente não abusar da sorte. Diz-se que os americanos andam pela direita, os ingleses pela esquerda e os timorenses pela sombra. Havendo um acidente, dizem-nos em reuniões, se houver um timorense envolvido, é este quem tem razão: venha pela direita, pela esquerda, bata por trás ou pela frente; o timorense tem sempre razão. Há carros com rodas, motor, volante, e pouco mais. Não me parece que algum timorense tenha carta-de-condução; acho que têm uns cartões indonésios com foto, mas duvidemos; nunca vi uma escola-de-condução. As matrículas são CATT36, UN25, etc.
De resto, também não existem Seguros; a "razão", em questões de trânsito como em outras, varia com o tamanho da catana ou com o número de elementos que seguem em cada viatura; a "gasolina" (gasóleo) vende-se, como tudo o resto, na berma da estrada. Mecânicos? Reboques? Não brinquemos. As estradas são da largura das nossas ruas de bairro; raramente se podem cruzar dois carros; um deles tem de encostar, e é fácil adivinhar que um timorense não se encosta; aliás, raramente se desvia do meio da estrada, com as mãos fincadas no volante. Divertido conduzir em Timor-Leste, é uma experiência, que bom que é estar vivo, hurra! É normal a gente ir a 50 à hora e a estrada "acabar"; pois, de repente não há alcatrão por baixo das rodas; com sorte, não há um precipício por baixo das rodas.
Existem quatro moedas em circulação, que se cambiam livremente em plena rua: o dólar americano (USD), o dólar australiano (AUD), a rupia indonésia e o Escudo português; a moeda nacional adoptada pelo CNRT é o USD; compra-se tudo em rupias, para ficar mais barato (os câmbios são feitos por palpite), mas é preciso um camião cheio de rupias para comprar um frango. Embora a coisa varie de forma alucinante, de um cambista para outro, e de um dia para o outro, lembro-me de ter comprado USD a 265$00 e de os ter trocado por rupias a 230$00... Uma nota de USD $100 vale mais do que o mesmo em notas pequenas. Um AUD estava, em Dezembro de 2000, a 130$00; e 50.000 rupias valiam 30 (trinta) escudos!
Um café custa cerca de 400$00; uma cerveja, de 600 a 1.000$00; uma garrafa de água mineral, de 150 a 350 escudos; um frango (cru, e se calhar vivo), 1.500 a 2.500; uma refeição trivialíssima, 2.500 a 5.000 escudos. Cuidado com os ovos (eles chamam "estrelado" a um ovo esturricado). Isto é tudo, evidentemente, em Díli; à excepção do frango de que falei, que ainda hoje está mal digerido, tão rijo era; nem com 2 horas de panela-de-pressão se lhe poderia meter o dente; e, claro, nunca lá vi tal aparato culinário.
Fora de Díli, é bom repetir, as coisas são um pedacito mais difíceis: para que não haja equívocos, é melhor adiantar que, em resumo, fora de Díli não existe nada. Farmácia? Nos hospitais. Lojas? Em Díli. Super-mercados? Díli. Correios? Já sabeis, irmãos.


Curiosidades timorenses
Hau la hatene é a primeira coisa que se deve aprender em Tétum. Não compreendo: hau=eu, la=não, hatene=entendo. A típica expressão sim-sim-sim, dita com o mais belo sorriso deste mundo, quer, geralmente, dizer NÃO. A sério! "Não", pode muito bem querer dizer sim... Não quer mais um bocado? Não! (ou seja, sim, obrigado). Coisas assim. A gente habitua-se.
Ao malai acabado de chegar, pode parecer um bocado estranha a posição nacional: sentar em cima dos calcanhares; deve ser muito confortável, porque vê-se gente nessa posição em todo o lado, a qualquer hora. O nosso motorista, que, obviamente, conduzia sentado, aproveitava cada paragenzita para sair do "jeep" e sentar-se imediatamente em cima dos calcanhares; o nosso jardineiro também; aliás, passava o dia nisso, mesmo quando arrancava umas ervitas. Igualmente o guarda-nocturno, que, honra lhe seja feita, não dormiu quase nada nos dois ou três dias que se seguiram à nossa chegada; depois disso, podia-se arrombar a porta à martelada que nada o tirava dos braços de Morfeu. Já agora, do "staff" da nossa casa de Liquiçá, falta referir a empregada (como dizer em linguagem politicamente correcta, haaa, serviçal, hmm, não, criada, também não, técnica de limpezas e arrumos, pode ser?), essa sim, uma excelente trabalhadora.
O trabalhador timorense médio ganha o equivalente a 20/25/30 contos por mês, sendo que uma mulher não pode ganhar o mesmo que um homem. Oficialmente, o único dia de descanso é o Domingo. Não existem impostos, e, por conseguinte, não existem sistemas de Segurança Social, associações patronais ou sindicais, ou seja o que for daquilo a que nós europeus estamos habituados e que temos por adquirido e natural.
Um timorense vive cada dia. Hoje. Agora.
O artesanato local é bastante variado (ver o site de artesanato), mas é tudo caríssimo. Como sempre, os preços dependem de várias coisas, e em especial da cara do freguês.
Como já antes disse, comer em Timor é, como conduzir, uma aventura. Em Díli, paga-se um "imposto" se a conta exceder uma determinada quantia. Obviamente, e pois com certeza devido à confusão de quatro moedas circulantes, são frequentíssimos os "enganos". De resto, o pior até não é o preço. O facto é que se come malzinho, com níveis de higiene ridículos, e com matéria-prima digna de todas as suspeitas. Já em Liquiçá, a "minha terra", havia um único restaurante, "Rose's Canteen" (yes, like this, in English) que serve, há um ror de anos, apenas três pratos - três: o "bifi tem", o "pêxi tem" e o "frango tem"; qualquer deles ronda os 1.500 escudos; a água ou a cerveja, muitas vezes comprada à tropa portuguesa a 100 paus, ali custa 600. A gente entra e pergunta à patroa (que não é Rosa coisa nenhuma), por desfastio, "então o que tem hoje?" Ela pensa um bocado e recita, pela milionésima vez, os três pratos: bifi tem, pêxi tem, frango tem. Só à minha conta, em menos de 3 meses, foram 24 bifitem, 2 pêxitem e 1 frangotem. Cá pra mim, o animal que deu p'rós bifes era sempre o mesmo, desde Outubro; as batatas fritas oscilavam entre os 12 e os 16 palitinhos, nem mais nem menos; o ovo-a-cavalo (ovo-a-búfalo, ou ovo-a-indeterminado, no caso) era um torresmo com uma coisa amarelada no meio); a decoração do prato era feita com verduras que já tinham visto melhores dias; às vezes, este "bitoque" exótico também trazia, por brinde, umas coisinhas brancas parecidas com arroz.
E por falar em búfalo, um bicho lindíssimo e mais manso do que uma vaca, espectáculo típico timorense é a matança do dito. Sem contar com as "T-shirts" e os chinelos, os timorenses matam o búfalo hoje como, se calhar, já faziam na Idade da Pedra: o "Tiu" (mais velho) espeta uma lança no peito do animal, a coisa faz "pluf" e vê-se um furito minúsculo; à segunda, ficam dois furos; só à terceira lançada é que se vê um sanguezito a espumar dos beiços do animal; ainda assim, ao búfalo custa um pedaço morrer, de modos que é espetado pela quarta vez; mas é só quando finalmente o bicho cai, já bastante mais pra lá do que pra cá, que o Tiu lhe põe uma perna de cada lado, aponta - mais ou menos - para a zona do coração, e enterra a lança na vertical; para se certificar, desloca-a lá dentro, em vários sentidos, não vá ter ficado alguma víscera por estraçalhar. Entretanto, já os circunstantes foram cortando uns pedaços, a começar pelas patas. Surpreendentemente, a última coisa a ser retirada, e é quando não resta mais nada, são as entranhas do animal. Não sei o que lhes fazem, mas calculo que sejam para adubo; naquele clima, as coisas têm uma grande tendência para ficarem rapidamente podres.
Talvez este pequeno relato possa impressionar as pessoas de mais fácil vómito, mas enfim, evidentemente, nem isto aqui é um guia turístico, nem sequer Timor é o local mais apropriado para tal lúdica actividade. O que não é exacto, porém.
Timor é um território, uma ilha, da mais extraordinária beleza que imaginar se possa. Aliás. Não é possível imaginar. Só vendo. Às vezes, percorrem-se 10 km em 2 horas, porque a estrada "acaba", ou porque a monção não deixa ver o caminho, ou porque um rio de repente nos "nasceu" à proa. Mas também se pode levar 4 ou 5 horas para fazer um trajecto mínimo, simplesmente porque a cada passo é preciso parar, sair, tirar fotografias, embasbacar para a paisagem. Foi lá que vi as mais belas coisas, em toda a minha vida, e já estive em alguns lugares. Existem sítios de sonho total, de onde não apetece sair, encostas de café e madres-do-cacau, milenares, verde, azul, amarelo, vermelho; o Éden na Terra, com o extraordinário povo que nele vive, simplesmente.
As crianças que nos sorriem com uma beleza resplandecente e nos acenam, felizes. As mulheres com a boca vermelha, como se sangrassem (mas não, é uma mistura que mascam, uma coisa com cal!), com enormes pesos à cabeça. Os velhos que nos saúdam com dignidade, compondo o "tais" (o pano tradicional, espécie de longa saia). Aquelas aldeias perdidas nos confins do Paraíso, tão sem absolutamente nada, tão cheias de completamente tudo.
Assim que o carro parava, no átrio de uma qualquer Escola perdida nas montanhas, sempre surgia uma multidão, sabe-se lá vinda de onde, e traziam uma mesa, a mais bela toalha, chá, café (esse espantoso café timorense que só existe naqueles ermos), leite de côco, e mesmo côco fresco, de comer à colher!
É Timor. Maubere. Inesquecível.
Contraste. Cadinho. E todas as outras palavras que apenas em conjunto podem tentar representar o que é realmente aquela terra.

Timor é Oriente!
Preciosa informação, mesmo. Um (mau) hábito ocidental é ver tudo com olhos... ocidentais. Puro erro. Timor fica a Oriente e é> Oriente. Mudar de planeta não será o mesmo que ir daqui até lá, mas aquilo não tem absolutamente nada a ver com Portugal, ou a Europa, ou mesmo com o chamado Velho Mundo; mesmo nada; aquele mundo é muito mais velho do que o nosso.
A vida, seja ela qual for, não tem lá o mesmo significado que para nós, ocidentais. As noções de tempo e de distância são diferentes. É difícil encontrar um país asiático onde não exista a pena de morte.
Existem milhares de cães, horrorosos, por todo o lado: esqueléticos, de olhos azuis, todos muito parecidos uns com os outros. São um dos muitos perigos da "fauna" local: se não conhecem uma pessoa, atacam. E nem sequer fazem parte dessa fauna "local", devem ser todos descendentes de um casal inicial, trazido pelos primeiros colonos. Fauna realmente local, além dos búfalos pacholas, são os crocodilos (existe uma lenda sobre a origem "crocodílica" de Timor), são as cobras-de-água (e se é de água, é perigosa), são os insectos voadores e rastejantes do tamanho de pássaros, e os mosquitos aos milhões, e lagartos de variedades suficientes para encher uma nova arca-de-Noé, e coisas de terra, mar e ar que nem sequer devem ter designação, pois, não há Latim que chegue a tanto.
E, além da fauna, ainda há o já tão falado clima, o verdadeiro significado de "tórrido", e seus familiares torrar e esturricar, e mais as monções, ó coisa extraordinária, a água cai mas não é chuva, é água, como se nos despejassem baldes pela cabeça abaixo; está o chão sequíssimo, de repente cai uma enxurrada valente, fica tudo inundado, e depois a água desaparece outra vez. Pode-se suar como um cavalo, durante o dilúvio, e estou em crer que é possível um ser-humano transpirar mesmo a tomar banho, na praia. Em suma: esquentadores e aquecedores não dão lá muito jeito. E, mesmo com tanta água, não é nada aconselhável bebê-la, ou mesmo usá-la para lavar a loiça sem "puritabs"; o mesmo para lavar os dentes. De resto, seja o que Deus quiser.
Outra coisa que dá pouco jeito é adoecer, como já sabemos. Possibilidades não faltam: paludismo e dengue são as coisas mais comuns. E há mais umas quantas maleitas para inquietar o malai, da simples desidratação à disenteria, passando por um naipe alargado de outras chatices. Evitemos falar muito disso, não vá dar azar. Evidentemente, como em tudo o mais, a gente habitua-se; ao fim de um mês ou dois, já ninguém se lembra de tomar a Mefloquina; de resto, a malária apanha-se com ou sem ela, e sempre se ganha alguma visão nocturna. Como? Ah, pois, faltou esclarecer que a Mefloquina reduz a visão nocturna, e tem mais um ou dois efeitos colaterais; coisas sem importância, diz-se.
Na praia, carradas de protector solar. Embora me palpite que conservar a roupa ainda seja a melhor protecção. Na rua, dir-se-ia que também carradas de repelente de insectos, mas isso é outra daquelas coisas que se esquecem rapidamente. Desembarcar em Comoro, por conseguinte, é também uma operação de despistagem; a gente muda, essa é que é essa.
Díli é uma cidadezinha destruída, onde os estrangeiros fazem o que podem pela vida. O ambiente de festa é comum, ó-ó, são três discotecas (agora parece que já há mais uma), e mais umas quantas festas particulares. A sensação é de deixa-me-cá-viver-hoje-que-amanhã-não-sabemos. Nos "distritos", a coisa é um bocado mais comedida, mas lá se vão arranjando uns jantaritos, nos quartéis ou nos alojamentos dos Samoanos, dos Jordanos, etc.
Não é preciso (nem permitido, cuidado com a passagem por Darwin) levar cervejolas, água mineral ou tabaco; a tropa portuguesa vende disso tudo a cem paus. Aliás, se não fossem os nossos feijões-verdes, nós, os civis, estavamos bem mal governados.
Mesmo nas zonas de chamada "vida social", nota-se a guerra linguística (e religiosa?): Bahasa indonésio e Islão, Inglês e Anglicanismo, Português e Catolicismo. Não há grandes misturas, convenhamos. De resto, a estratificação por classes sociais também não é tão fluida como seria talvez de esperar. A população timorense, regra geral, não consta destas coisas; de resto, um suminho de condensado, a 1.000 ou 1.200 paus, não é lá muito acessível para um ordenado de um "quadro" timorense (60 ou 70 contos), quanto mais para o grosso da população, que ganha ou 20 ou 30 contitos, ou zero, conforme a perspectiva.
Os fins-de-semana em Díli são, quando não há reuniões, uma coisa gira. A gente chega lá e desforra-se. Podes crer. Faz lembrar o ambiente dos filmes sobre o Vietname, talvez com mais animação: correm-se as três ou quatro "capelinhas", sem notar grande diferença porque a música é sempre a mesma em todas elas. O "Bá-Fon", no heliporto, é o mais concorrido e também o mais animado; o álcool escorre tanto como a monção; volta-e-meia, há animação redobrada, porrada de criar bicho. É natural. Numa terra cheia de soldados, devido à escassez de recursos femininos (o contingente professoral, nesse aspecto, é uma mina), a tendência é dar vazão às energias por outras formas.
As mulheres timorenses não são para aqui chamadas. Para aqui, digo, para este particular. O catolicismo de raiz animista, obriga a uma espécie de recato com requintes de sadismo e malvadez. Diz-se que, se um malai olhar uma timorense bem nos olhos, ela engravida. Bocas. Mas o que é facto é que não "fica bem" uma senhora tomar banho sem estar completamente vestida; nada de decotes, rachas, mini-saias ou outras mui pecaminosas coisas. Vejam o que aconteceu no Mercado, a 4 raparigas timorenses vestidas à europeia; não fora a GNR e a tropa da UNTAET, que também passaram um mau bocado, e as raparigas tinham sido linchadas. Timor é dos timorenses; portanto, a cultura, a tradição, os costumes, os hábitos e as idiossincrasias timorenses são também deles.
Oriente. Ásia. Do outro lado do mundo. De facto, é conveniente não pretender, ou fingir, que o outro lado fica deste lado. Não é tudo o mesmo. Não compreender ou não aceitar a diferença, impor a nossa cultura ou as nossas tradições como paradigma da "civilização", é uma forma de neo-colonialismo mental, um tipo de paternalismo insuportável, de folclore politicamente correcto.
Ir para Timor é, sobretudo, um acto de respeito.

Ensaio sobre Timor, por Cap.Miguel Garcia

Este é um item que faço questão de colocar aqui. Tem todo o interesse, este ensaio de Miguel Garcia (Capitão), publicado num site com a ternurenta designação de "Alquimias", e que tem muitos outros textos, sobre temas, hum, digamos, sortidos.
Tremenda confusão se instalou, e que talvez o tempo se encarregue de esclarecer, sobre a minha intenção de publicar, e, por conseguinte, dar algum outro (modesto) relevo a esse trabalho. Apesar de já um pouco desactualizado, ainda assim conserva alguma informação a reter. Voltando à confusão, talvez seja engraçado ir à página de correspondência e ver em Agosto 2001. Alguém me explica?
Sem que nada me obrigasse a isso, "pedi" "autorização" para "publicar" o tal ensaio (palpita-me que se me vão gastar as aspas) e, em vez de "ok, obrigado" (e nem era preciso agradecer, ora essa, por quem sois, eu é que agradeço) recebo "resmas" de e-mails, e que sim, e que não, e etc. Como disse na última resposta, dirigida ao próprio, não há nada que possa impedir seja quem for de fazer um link seja ao que for. Tecnicamente, é possível barrar de alguma forma o acesso, mas é isso que a Internet (ainda) tem de bom: é livre. Macacos me mordam se entendo porque cargas de água se há-de alguém lembrar de "não autorizar" uma coisa destas.
Isto não lembra à mulher da fava-rica. Se eu não tivesse dito nada, o ensaio lá estava, sossegadinho, e provavelmente ninguém lhe ligava peva. Assim, ora cá temos um relevozito. Era essa a intenção? Ou este ensaio tem algum "pedigree" incompatível com os... quê?, "pacóvios"?, que frequentam timor.no.sapo.pt? E vocês proíbem ou "não autorizam" o quê a quem? Se retirei o ficheiro, foi porque - por mera cortesia - me tinha comprometido a fazê-lo, caso houvesse alguma objecção. (com)Prometido é devido. De resto, a coisa está rigorosamente na mesma. A não ser que isto tenha alguma muitíssimo estranha coisa por trás, tipo água-no-bico, e os "alquimistas" retirem eles próprios a página; lá se vai o link. Se for o caso, e à falta de melhor opinião, que lhes faça muito bom proveito. Enfim, tristezas. Aqui fica o link", agora que retirei o muitíssimo abusivo ficheiro em formato HTML. E até abre uma nova página e tudo, heim? target="_blank", heim?

Isto foi escrito em 23.08.01. No dia seguinte, o Capitão Miguel Garcia enviou-me um e-mail autorizando a publicação e dando por findos todos os equívocos. Aleluia! E obrigado. Na mesma página de correspondência (Correio de Agosto 2001), está também este último e-mail. Assunto encerrado, mas fica-me de emenda.



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